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Opinião
Cuidar de nós, é cuidar dos outros e de si
terça-feira, 24 março 2020 09:38
Por: Maria Eugenia Saraiva, presidente da Liga Portuguesa Contra a SIDA e psicóloga clínica e da saúde
Cuidar de nós, é cuidar dos outros e de si
Toda a sociedade, atualmente, tem de se adaptar e ajustar às novas necessidades e de forma solidária desenvolver e criar novos serviços que vão ao encontro daquilo que as pessoas, no geral, e as pessoas infetadas pelo VIH, hepatites virais, em particular, entre outras doenças crónicas, precisam.
 
E precisam sobretudo de ter confiança nos serviços, saber que, apesar do isolamento e da sobrecarga dos serviços de saúde, há quem esteja lá para elas, que não vão estar sozinhas ou sem resposta para serem ouvidas, nos seus problemas, nas suas angústias, sentindo que estamos prontamente para elas, sem tempos de espera, sem chamadas que não conseguem ser atendidas.
 
Foi isso que a LIGA fez, ao alargar o horário de atendimento da linha SOS SIDA 800 20 10 40, que completa 29 anos, dos 30 que a Liga Portuguesa Contra a SIDA já conta, mantendo o serviço confidencial, anónimo e até hoje gratuito, através dos donativos que conseguimos receber. Longe de reprovações, porque o covid-19 acentuou o estigma, alargando-o a todos e não só às pessoas infetadas pelo VIH, e dedicado não só à problemática do VIH ou às hepatites viricas, mas a qualquer pessoa.
 
Todos ouvimos e sabemos que temos a prioridade de evitar a transmissão pelo covid-19, e este risco, de alguma forma, o medo do covid-19, controla o risco de infeção e de coinfecções, por exemplo, por infeções sexualmente transmissíveis, pelo afastamento social que impõe. Ou seja, este surto alterou, por isso, o nosso comportamento e por consequência também o tipo de chamadas que até agora temos tido na Linha SOS SIDA. Se desde algum tempo as chamadas eram sobretudo de pessoas com medo de estarem infetadas pelo VIH, que ligavam para saber o grau de risco de um determinado comportamento, agora é sobretudo procurado por pessoas que vivem com a infeção por VIH. E porquê?
 
Porque infelizmente a infeção pelo VIH ataca o sistema imunitário e sabemos que o covid-19 é mais grave em imunosuprimidos.
 
O que podemos fazer quando somos procurados nestas situações?
 
Fazer a gestão da informação, do stress e da ansiedade de quem nos procura.
 
Ter escuta ativa e disponibilidade para a mesma.
 
Transmitir uma informação clara e credível (os técnicos precisam de estar permanentemente atualizados com a informação facultada pela Direção-Geral da Saúde).
 
Explicar que a imunossupressão depende da fase de evolução da infeção. Pessoas que estão com carga viral indetetável terão menos probabilidade de risco de gravidade. Depois, explicar que todas as pessoas agora devem evitar infetar-se pelo covid-19, permanecendo em casa, respeitando as regras de distanciamento social, lavagem das mãos e etiqueta respiratória, e isto é ainda mais importante se estiver com a sua imunidade fragilizada.
 
Seguidamente, aumentar a sua perceção de controlo, ou seja, o que cada um pode fazer para garantir que reforça o seu sistema imunitário, para além das regras de isolamento social, nomeadamente controlar o stress e ansiedade e explicar como distrair-se, falar com amigos, evitar informação dramática e pouco segura, limitar a exposição a noticias que possam aumentar a ansiedade e a preocupação. Fazer exercício físico, em casa, técnicas de relaxamento, cuidar da sua alimentação, evitar fumar ou beber em excesso.
 
Outro tipo de pessoas que ligam são pessoas que estão preocupadas por não terem acesso, atualmente, aos testes de rastreios às infeções sexualmente transmissíveis, nomeadamente ao rastreio ao VIH, e algumas destas são aquelas que começam a pensar e outras a adquirir o autoteste para o fazer em casa, por iniciativa própria, e que depois necessitam de aconselhamento pós-teste, para lidarem com um resultado, mesmo que seja negativo.
 
Igualmente, temos recebido chamadas de várias pessoas que vivem com a infeção, preocupadas, e que até à data nunca tinham partilhado o seu estado serológico, mas que numa tentativa de protegerem a sua saúde referem ter contado ao seu supervisor, chefe, patrão, que vivem com a infeção por VIH, a fim de ficarem em isolamento social e/ou em quarentena voluntária e que referem sentirem-se angustiadas umas e outras aliviadas, por o terem feito.
 
Outras ainda, questionando os seus direitos e deveres, com questões do fórum jurídico e social, nomeadamente quando por decisão própria abandonaram o seu posto de trabalho, quando lhes foi negado a possibilidade de efetuarem teletrabalho e/ou quando em isolamento imposto, não conseguem contactar com alguém que simplesmente lhes entregue os medicamentos e/ou as compras necessárias para a sua subsistência. Por isso, a LIGA, através dos seus técnicos, também tem realizado o levantamento de medicação nas farmácias hospitalares, com entrega em casa, em situações de acompanhamento e conforme a sua disponibilidade.
 
Estas questões e solicitações vão para além da linha SOS SIDA, e por isso também, a LIGA aposta noutras respostas interligadas à linha, que sempre que identifica a necessidade de um apoio específico encaminha para outros serviços em sistema de teleconsulta, nomeadamente as consultas referentes aos apoios psicológico, social, nutricional e jurídico, numa atitude preventiva, investindo na promoção da saúde mental e física positivas e procurando minimizar o sofrimento das pessoas mais vulneráveis, que estando com o sistema imunitário fragilizado e não podendo deixar de trabalhar, por as suas empresas/organizações não o permitirem, facilmente entram em exaustão emocional e física.
 
Toda a equipa da LPCS, está em estreita ligação e articulação com respostas de saúde (808 24 24 24) e sociais (300 502 502) e com os seus parceiros, nomeadamente as entidades hospitalares, para o apoio que for necessário.
 
Ninguém necessita de sentir medo por não ter os cuidados que venham a necessitar. Já basta o medo que todos temos de uma pandemia anunciada sobre um vírus desconhecido, que alterou por completo a realidade de todos, como até agora a conhecíamos.
 
Durante este período, cabe a cada um de nós, individualmente, assumir a nossa responsabilidade social na prevenção da infeção, mas se cuidar de si, estará a cuidar de nós e a cuidar dos outros.
 

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