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Opinião
Vitamina D em tempos de pandemia
segunda-feira, 27 abril 2020 10:22
Por: António Marinho, assistente hospitalar graduado de Medicina Interna do Centro Hospitalar do Porto e professor do ICBAS
Vitamina D em tempos de pandemia
A vitamina D tem sido alvo de intenso debate em doença humana nas últimas duas décadas. Ao défice aparentemente generalizado de vitamina D têm sido atribuídas numerosas patologias em que esta deficiência parece estar envolvida quer na sua génese quer num aumento da sua gravidade.
 
Na verdade, a vitamina D não é uma vitamina. Em 1931, o químico alemão Adolf Windaus, da Universidade de Göttingen, constatou que ela tinha a mesma estrutura das hormonas esteroides, das quais o cortisol e as hormonas sexuais são o exemplo mais conhecido. Nos anos 90, com a descoberta do receptor para a vitamina D, difundiu-se que seria uma classe em si mesma, devido à ausência de um órgão alvo específico, como acontece com outras hormonas. “Imagine uma rede de internet aberta por uma única chave: a vitamina D.”
 
A vitamina D é uma chave bioquímica que abre as portas de milhares de diferentes processos fundamentais para a vida. Se os seus níveis forem adequados, não faltarão chaves e as células funcionarão em plena atividade. Mas, com níveis baixos, várias dessas funções ficarão bloqueadas. Por isso, sem vitamina D, a vida é impossível.
 
Há muito tempo se sabe, por exemplo, que níveis baixos demais induzem perda de massa óssea e uma fragilidade muscular exagerada com risco de quedas e fraturas. A vitamina D é essencial para a absorção do cálcio: “Os dinossauros não teriam aguentado o peso do próprio corpo”, explica Ian Wishart, no livro "Vitamin D: Is This the Miracle Vitamin?".
 
A síntese de vitamina D ativa é feita por processos biológicos complexos; no ser humano, a sua síntese implica uma fonte de “matéria-prima”, que é fornecida essencialmente pelo sol. A luz solar – aquela que envelhece a pele e aumenta o risco de cancro. O raio ultravioleta B (UVB) do sol desencadeia uma série de reações químicas que iniciam o processo de produção de vitamina D ativa.
 
Os humanos, desde sempre, mantiveram uma relação íntima com o sol. Mas, quando a revolução industrial entrou em cena, no século XVIII, essa história tomou outro rumo; as cidades começaram a estreitar-se, os prédios cada vez mais próximos, ficando cheias de sombras. O aumento da poluição dificultava a passagem dos raios solares. As crianças começaram a apresentar deformações ósseas e dos dentes. Estavam a sofrer de uma doença pouco conhecida até então: o raquitismo.
 
Em 1916, Harry Steenbock, da Universidade de Wisconsin, descobriu que a luz solar era a resposta para o raquitismo. Surgiu então a moda da helioterapia (terapia da exposição solar), que havia sido idealizada pela primeira vez pelo historiador grego Heródoto, no século I. Na Europa e nos EUA, hospitais construíram solários e varandas para banhos de sol. Por outro lado, um estranho fenómeno ocorria no norte da Europa, onde o raquitismo era claramente menos prevalente; o segredo estava na dieta: alimentavam-se, principalmente, de peixes selvagens e consumiam muito óleo de fígado de bacalhau.
 
O bioquímico americano Elmer McCollum, também da Universidade de Wisconsin, analisou esses alimentos e neles encontrou uma nova substância, que batizou de vitamina D. Os médicos passaram a receitar óleo de fígado de bacalhau. A indústria do leite começou a fortificar os laticínios e derivados com vitamina D.
 
Mas, de lá para cá, aconteceram várias mudanças. Primeiro, o nosso estilo de vida passou a incluir cada vez menos sol. Usamos protetor solar, ficamos mais tempo em locais fechados. Por uma boa causa, claro: proteger a pele do cancro.
 
Porém, aplicar um filtro solar fator (FPS) 15 reduz em 98% a produção dessa vitamina.
 
Em 1979, o aiatolá Khomeini tomou o poder, instaurou um governo islâmico, onde as mulheres passaram a usar trajes tradicionais que cobrem quase todo o corpo. O efeito sobre a saúde foi imediato. Entre 1989 e 2006, o número de casos de esclerose múltipla cresceu 800% no país (como mostrou um estudo realizado em 2013 pela Universidade de Oxford).
 
As outras mudanças aconteceram na atmosfera terrestre e esperança de vida. A poluição aumentou de forma significativa. Em muitas cidades, a densidade é tão elevada que se deixou de ver os seus pontos altos. Em Atenas, por exemplo, o monte Olimpo deixou de se conseguir observar do centro da cidade.
 
Finalmente, a esperança de vida aumentou de forma significativa, e com ela o envelhecimento cutâneo e um maior confinamento domiciliário, com perda fisiológica da síntese de vitamina D. Surgem síndromes como a sarcopenia e as fraturas de fragilidade com impacto na funcionalidade e na sobrevida.
 
Por fim, até há década de 1990, acreditava-se que a única função da vitamina D era essencialmente regular o metabolismo do fósforo e cálcio. Nos últimos anos, as funções “extra-ósseas” têm vindo a ser estudadas e a tentar relacionar-se doenças crónicas com o seu défice mais acentuado, nomeadamente as doenças cardiovasculares, o cancro, a diabetes mellitus, a depressão e a demência. No entanto, os estudos são complexos e a evidência gera muito polémica, pelo que se deve continuar a defender a vitamina D apenas no combate à “fragilidade”.
 
Em 2020, entramos na maior pandemia do homem industrializado, o mundo foi colocado de quarentena, os idosos têm vindo a morrer de uma pneumonia intersticial particularmente grave provocada por um coronavírus, o SARS-COV-2. É neste contexto que se volta a discutir a vitamina D, hormona com propriedades anti-inflamatórias, antimicrobianas e fundamental para a saúde do músculo e osso. Em casa e sem exposição solar, vamos ter uma população carente em vitamina D, com consequências significativas no seu estado de saúde.
 
O risco de infeções graves, de perda de massa muscular, óssea e consequente perda de autonomia é cada vez maior e passa a estender-se não só aos idosos confinados cronicamente, mas a toda uma população de pessoas com doenças crónicas que se encontram em confinamento exclusivo. A “oferta” de mil a dois mil UI de vitamina D por dia a essa população nesta fase, seja em suplementos, reforço alimentar ou aumento de exposição solar em varandas, são medidas de saúde pública importantes nesta época da pandemia.
 
Apesar de tudo, não se deve “libertar a ideia” de que a vitamina D evita a COVID-19 e que se pode substituir medidas eficazes pela toma de suplementos de vitamina D, como tem sido defendido em alguns fóruns. Deve ser entendida como um complemento “social” ao tratamento global de uma população em confinamento e que carece de cuidados de saúde adequados.
 

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