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Opinião
Dia Mundial da Esclerose Múltipla: a incontinência urinária não é só mais um sintoma
quinta-feira, 03 dezembro 2020 10:06
Por: Ricardo Pereira e Silva, departamento de Urologia do Hospital de Santa Maria, Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte
Dia Mundial da Esclerose Múltipla: a incontinência urinária não é só mais um sintoma
A esclerose múltipla (EM) é uma doença neurológica crónica que afeta cerca de oito mil portugueses, sendo a maior parte dos casos diagnosticada entre os 20 e os 40 anos, podendo, no entanto, afetar pessoas de qualquer idade. Em causa está o facto de o sistema imunitário do doente provocar a destruição da camada de mielina, essencial para a condução nervosa normal. Existem diversos tipos de EM, dependendo do grau e da localização das lesões, muito variáveis, que afetam o cérebro e a medula espinal.
 

A doença em si não é fatal, mas pode ser incapacitante e ter um impacto significativo na vida do indivíduo. O prognóstico é variável e, apesar de ser uma das causas mais frequentes de incapacidade no adulto jovem, existem ainda algumas formas benignas que, após vários anos de doença, têm consequências mínimas ou inexistentes. Em caso de existência de sintomas, existem alguns a ter em conta, como: incontinência urinária, disartia (perturbação da fala), disfunção sexual ou alterações a nível psicológico/psiquiátrico, como a depressão.

Focando-nos na incontinência urinária (IU), estima-se que esta afete, ainda que em grau variável, até 80% dos doentes com EM. Além das consequências físicas, a IU tem ainda uma carga emocional e psicológica intrínseca que não pode ser negligenciada, uma vez que poderá agravar outros sintomas. Uma pessoa incontinente tem mais probabilidade de evitar o contacto pessoal, social, profissional e até sexual devido à sua condição. Como tal, apesar de a EM ser uma doença que por si só já acarreta um enorme peso, não podemos relegar para segundo plano sintomas como a IU.

Além disso, quando falamos em incontinência em pessoas com EM, estamos maioritariamente a falar de um público mais jovem. Isto significa que o impacto a nível social, psicológico e profissional é ainda maior, já que existe ainda um grande estigma associado a este problema.

Em plena pandemia, este tema torna-se ainda mais importante, uma vez que a IU pode ter um impacto psicológico ainda mais acentuado decorrente da dificuldade acrescida em aceder a uma casa-de-banho. As pessoas podem, assim, evitar ainda mais deslocar-se ao exterior, ficando mais tempo isoladas em casa.

É ainda importante diferenciar a incontinência urinária, que consiste na perda involuntária de urina, e a bexiga hiperativa, que diz respeito a uma vontade súbita e inadiável de urinar. A segunda pode ser acompanhada da primeira, e vice-versa, mas nem sempre isto acontece. No entanto, é crucial procurar ajuda aquando dos primeiros sintomas de bexiga hiperativa, uma vez que ao descurar o problema este poderá agravar-se e resultar em episódios de incontinência. Portanto, as IU devem ser tratadas precocemente de forma a que a taxa de sucesso seja maior e o tratamento seja o menos invasivo possível.

Existem tratamentos de primeira linha para tratar a incontinência urinária associada à EM, que está geralmente relacionada com a bexiga hiperativa, à qual o tratamento é direcionado. Numa fase inicial e antes de se partir para a cirurgia como tratamento da incontinência associada à EM, é então utilizada a medicação em comprimidos. Quando esta medicação é ineficaz, a implantação de um neuromodulador de raízes sagradas pode ser uma das opções mais adequadas. Esta técnica cirúrgica minimamente invasiva, que oferece taxas de sucesso bastante elevadas, consiste na implantação de um elétrodo junto das raízes nervosas da cavidade pélvica. Este é ligado a um gerador de estímulos, que funciona de forma semelhante a um pacemaker cardíaco e que administra uma corrente elétrica contínua, de baixa intensidade e impercetível.

O objetivo passa por reduzir o número de idas à casa-de-banho, a sensação de urgência e a incontinência urinária, quando presente. Outro dos benefícios passa ainda pela melhoria ou normalização do esvaziamento, um problema também frequente em pessoas com EM.

Para tudo isto acontecer, em primeiro lugar, é necessário que a pessoa afetada reconheça o problema e procure ajuda médica diferenciada nesta área. O ganho de qualidade de vida como consequência do tratamento é enorme, sendo preciso que os doentes percebam que sim, existe tratamento, e que os sintomas não devem ser ignorados, mesmo quando existem outros problemas classicamente considerados maiores, no âmbito da sua EM.

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