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Opinião
Durma bem. Tenha um futuro saudável

Durma bem. Tenha um futuro saudável

Por: Joaquim Moita, Assistente Graduado de Pneumologia, coordenador do Centro de Medicina do Sono do CHUC e presidente da Associação portuguesa do Sono

quinta-feira, 18 março 2021 12:32

Nas décadas de 1980 e 1990 do século passado, o sono, enquanto estado biológico específico, era profundamente desvalorizado. Dormir as oito horas de que os nossos avós falavam e cuja evidência científica é hoje indiscutível, era considerado preguiça. Os portugueses deitavam-se tarde e levantavam-se cedo para o trabalho e para a escola.

Nessa altura, os doentes com patologia do sono eram abordados de forma fragmentada por diversas especialidades como a Pneumologia, Neurologia, Psiquiatria, entre outras.

Contudo, o progressivo conhecimento acumulado permitiu compreender a utilidade da sua integração no seu denominador comum, o sono, de modo a justificar o reconhecimento da Medicina do Sono enquanto especialidade médica (EUA, Alemanha, entre outros países) ou competência independente, como ocorre em Portugal.

Muitos destes estigmas ainda hoje persistem, mas sabemos que o sono é uma das áreas do conhecimento médico onde é maior a investigação.

Sabemos que, para o cérebro, o sono é decisivo na seleção e preservação das memórias e este conhecimento advém do desenvolvimento da neuroimagem e da neurofisiologia como a informação é processada durante o sono.

O sono afeta todo o nosso organismo e muito do que conhecemos da sua função resulta das implicações que a falta dele nos faz. Dormir seis ou menos horas por noite durante uma semana tem o mesmo impacto que uma noite inteira sem dormir.

A pessoa privada de sono tem, no dia seguinte, menor atenção, lentificação do raciocínio, menor racionalidade na tomada de decisões. Torna-se mais irritável. Fica sonolenta. Adormece ou tem episódios incontroláveis de micro-sono, o que pode ter efeitos calamitosos no trabalho ou na condução.

A privação de sono é a primeira causa de acidentes rodoviários nos Estados Unidos. Em Portugal, não sabemos. Aliás, as campanhas de prevenção rodoviária nem tocam nesta questão. Raramente ouvimos “Com falta de sono, não conduza” ou algo semelhante.

No idoso, a privação está associada a diferentes quadros de demência. Aliás, os sintomas das duas entidades são muito parecidos.

Os estudos são claríssimos: dormir pouco, seja por opção, obrigação ou doença, favorece o desenvolvimento de doenças cardiovasculares (hipertensão arterial, arritmias, enfarte), de diabetes mellitus e alterações hormonais. Nos homens, ocorre deformação dos espermatozoides e uma diminuição significativa dos níveis de testosterona. Também nas mulheres se verifica diminuição da produção hormonal folicular. Um importante estudo americano mostra que uma em cada três enfermeiras que trabalham por turnos noturnos têm alterações menstruais.

Seguramente que a infertilidade que atinge tantos casais passa pela má qualidade do sono.

Os turnos noturnos são uma causa reconhecida pela OMS de cancro da próstata e da mama. Finalmente, está bem estabelecido que o sono insuficiente leva a uma diminuição das defesas imunitárias contra agentes infeciosos. A vacinação antigripal é muito menos eficaz. Podemos mesmo especular, com base na evidência disponível, que a privação de sono cria um status favorável à COVID-19.

O SAS (Síndrome de Apneia do Sono), de acordo com os últimos grandes estudos epidemiológicos europeus, atinge cerca de 30% da população adulta. A prevalência vai aumentar. O crescimento do SAS está em estreita ligação com a obesidade crescente, mas também com o envelhecimento. O SAS é mais frequente à medida qua a idade avança, ao mesmo tempo que promove o próprio envelhecimento.

A concomitância de diversas doenças do sono é frequente. O exemplo paradigmático é associação entre SAS e insónia crónica, que atinge 40% e que representa um enorme desafio na abordagem diagnóstica e terapêutica de ambas as doenças. Ao investigarmos o SAS com registos poligráficos do sono encontramos com frequência crescente alterações (perda de atonia do REM) que são percussoras da Doença de Parkinson e de quadros de demências.

As doenças do sono e em particular o SAS constituem, pois, um enorme desafio de saúde pública. Felizmente que muito se avançou no que respeita à prestação de cuidados domiciliários ao doente, sendo que Portugal dispõe, seguramente, de um dos sistemas mais avançados da europa neste domínio. E tem que melhorar com o envolvimento de todos os parceiros: doentes, SNS, prestadores de serviços, entidades reguladoras.

Tenho, pois, a perceção de que muito evoluiu. Exemplos disso são a pressão constante da população mesmo em tempos de pandemia, e a procura nos meios de comunicação social de mais informação sobre sono.

Nos próximos dias iremos publicar um grande estudo sobre o impacto da pandemia e do confinamento no sono dos portugueses. Desde já posso adiantar que, ao contrário do que se podia esperar, os doentes estão a usar o seu aparelho como nunca. Nunca a adesão foi tão alta. E isso significa respeito pelo sono.

Joaquim Moita
Assistente Graduado de Pneumologia
Coordenador do Centro de Medicina do Sono do CHUC
Presidente da Associação portuguesa do Sono

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