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Opinião
Importância do diagnóstico precoce do cancro do pulmão. Há vários tipos com diferentes abordagens

Importância do diagnóstico precoce do cancro do pulmão. Há vários tipos com diferentes abordagens

Por: Encarnação Teixeira

terça-feira, 23 novembro 2021 09:38
Leia a opinião de Encarnação Teixeira, pneumologista no Centro Hospitalar Lisboa Norte, relativamente ao cancro do pulmão.

 

O cancro do pulmão é a principal causa de morte por doença oncológica a nível mundial. Um dos motivos da elevada mortalidade relaciona-se com o diagnóstico tardio, muitas vezes por ausência de sintomas em fases iniciais da doença.
 
O rastreio ou deteção precoce de cancro do pulmão destina-se a indivíduos sem sintomas, mas considerados de risco. A deteção precoce é fundamental uma vez que ao diagnosticar o tumor numa fase inicial, tem maior probabilidade de proporcionar uma terapêutica eficaz potencialmente curativa.
 
Os indivíduos considerados de risco entre 50 e 80 anos, fumadores ou ex-fumadores há menos de 15 anos com uma determinada carga tabágica, ou com exposição profissional, familiares diretos com cancro do pulmão, doença pulmonar obstrutiva crónica, fibrose pulmonar ou antecedentes de radioterapia sobre o tórax, devem efetuar uma TAC de baixa dose anual.
 
Em Portugal e em vários países da Europa, ainda não está implementado o rastreio de cancro do pulmão de base populacional, no entanto, já existem centros com equipa multidisciplinar para avaliação e seguimento de nódulos pulmonares detetados com TC de baixa dose.
 
A existência de sinais ou sintomas considerados suspeitos deve ser investigada rapidamente, se possível através de uma via verde, de maneira a dar prioridade e permitir um diagnóstico atempado.
 
Isto implica que a população em geral tenha o conhecimento suficiente sobre cancro do pulmão e os cuidados de saúde primários a capacidade de resposta, organização e colaboração com as Unidades de Investigação Hospitalares de maneira a minimizar o tempo para o diagnóstico, estadiamento e decisão terapêutica.
 
É importante distinguir os vários tipos de tumores pulmonares, visto que têm características e formas de tratamento muito diferentes.
 
  1. O carcinoma pulmonar de pequenas células (CPPC) representa cerca de 10 a 15% dos tumores pulmonares e caracteriza-se por ter um crescimento rápido encontrando-se em fases avançadas com metastização na altura do diagnóstico em cerca de 70% dos casos. Tem uma boa resposta à quimioterapia e radioterapia, mas de curta duração. A cirurgia raras vezes é opção;
  1. O carcinoma pulmonar de não pequenas células (CPNPC) representa cerca de 80 a 85% dos cancros do pulmão e de acordo com a origem nas diferentes células pulmonares se agrupa em três subtipos: adenocarcinoma, carcinoma de células escamosas e carcinoma de grandes células;
  1. O adenocarcinoma, é o subtipo mais frequente (35-40%) e que tem o crescimento mais lento. Está muitas vezes associado a história de tabagismo, mas é o tumor mais comum nos não fumadores, mulheres e jovens. Localiza-se normalmente na periferia do pulmão, por vezes na forma radiológica de nódulo solitário;
  1. O carcinoma de células escamosas (25 a 30%) está muito relacionado com o tabaco e localiza-se na parte central do pulmão junto dos brônquios principais. Pode surgir em radiografia como uma volumosa lesão cavitada;
  1. O carcinoma de grandes células é o menos frequente (10%) e surge em qualquer parte do pulmão (central ou periférico) com tendência a crescer e propagar-se rapidamente.
 
Os sintomas de cancro do pulmão podem estar relacionados com o tumor primário, com a disseminação loco regional, com a doença metastática ou com síndromes paraneoplásicas. Os sintomas relacionados com o tumor primário dependem da sua localização central ou periférica.
 
Os tumores centrais produzem tosse, dispneia (dificuldade respiratória), pneumonia obstrutiva, pieira e expectoração hemoptóica (com sangue). Os tumores periféricos podem causar sintomas relacionados com derrame pleural agravando a dificuldade respiratória e dor relacionada com infiltração da pleura e parede torácica.
A disseminação loco regional do tumor pode causar sintomas por compressão ou invasão de estruturas vizinhas, específicos de cada caso: veia cava superior (síndroma da veia cava superior com edema do pescoço e face), nervo laríngeo recorrente (disfonia), nervo frénico  (agravamento da dispneia), plexo braquial (dor no ombro com irradiação ao braço), esófago (dificuldade em engolir), pericárdio (derrame pericárdico) e traqueia (agravamento da dificuldade respiratória).
 
Por vezes, os primeiros sintomas estão relacionados com uma metástase à distância, mais frequentemente a nível do cérebro, osso ou fígado.
 
O carcinoma pulmonar de pequenas células, devido ao potencial metastático, é na maior parte das vezes tratado com quimioterapia. Apesar da longa história de tentativas falhadas de melhorar os resultados, a recente associação da imunoterapia ao tratamento da doença extensa, coloca algum otimismo em relação ao futuro.
 
As abordagens do carcinoma pulmonar de não pequenas células, dependendo do estádio, histologia, alterações genéticas e condição médica do doente, incluem geralmente a cirurgia, radioterapia, quimioterapia, terapêutica dirigida a alvos moleculares e imunoterapia que podem ser administradas sozinhas ou em modalidades combinadas.
 
Nos últimos anos, o tratamento personalizado dirigido a alvos moleculares e o aparecimento da imunoterapia alteraram o prognóstico dos doentes com cancro do pulmão metastizado.
 
O doente deve participar de forma ativa nas decisões terapêuticas, no sentido de passar a ser detentor de um conhecimento mais ou menos profundo da sua doença, das possibilidades terapêuticas disponíveis e das respetivas consequências, quer fisiológicas quer psicossociais.
 
A informação e comunicação médico-doente é presentemente cada vez mais enquadrada no contexto de cancro como doença crónica, o que pressupõe um contacto periódico e prolongado entre médico e doente.
 
A confiança no médico e no plano terapêutico é crucial no combate ao cancro, mas por vezes, uma segunda opinião pode contribuir para sentir mais segurança.   

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