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Opinião
Prevenção primária na diabetes: o desafio salva-vidas

Prevenção primária na diabetes: o desafio salva-vidas

Por: Ana Calafate

segunda-feira, 14 novembro 2022 11:52
Leia o artigo de opinião da autoria de Ana Calafate, médica de família na USF Garcia de Orta, no Porto, a propósito do Dia Mundial da Diabetes, assinalado a 14 de novembro. 

 

Dia 14 de novembro celebra-se o Dia Mundial da Diabetes. A Federação Internacional de Diabetes (IDF) diz-nos que 1 em cada 10 adultos em todo o mundo vive com diabetes, num total de 537 milhões de pessoas. Em Portugal, a IDF avança com uma prevalência de 9.1 % de diabéticos e, em 2021, 22.858 mortes no nosso país foram atribuídas a esta que é a doença metabólica crónica mais prevalente - são mais de 2.6 mortes relacionadas com a diabetes por hora…
 
Quase metade das pessoas com diabetes não sabe que a tem, impedindo-as de iniciar o tratamento adequado da sua doença, mas também de controlar os principais fatores de risco associados. Sabemos que a mortalidade na diabetes anda a par com a doença cardiovascular (CV) – ser diabético é fator de risco independente para eventos CV major como enfarte, AVC ou morte por estas causas, e está associada a piores outcomes na recuperação destes eventos. Também as complicações microvasculares como a retinopatia, nefropatia e neuropatia, têm um impacto social incalculável.
 
É precisamente para impedir este desfecho que em 2022, a campanha do Dia Mundial da Diabetes se centra no slogan “Educar para proteger amanhã”. É necessária uma intervenção cuidada, estruturada e repetida cujo objetivo é a prevenção primária destes doentes. 
 
Desde logo, os profissionais de saúde devem saber diagnosticar a diabetes precocemente, aproveitando o tempo limitado de que dispõem para aconselhar os melhores cuidados, através de educação contínua que empodere o doente para a gestão da doença. Nas intervenções no estilo de vida, os consensos de 2022 da European Association for the Study of Diabetes (EASD) recomendam que os doentes com diabetes devam ser aconselhados a praticar atividade física regular e evicção do sedentarismo, de acordo com a sua capacidade física, sono adequado e cessação tabágica. De destacar a inclusão do sono pela primeira vez nestas recomendações, aconselhando-se um sono consistente, mesmo aos fins-de-semana, num total de 6-8h/dia e com o padrão “early bird” associado a melhor controlo metabólico.
 
A perda ponderal deve ser individualizada, idealmente superior a 5 % nos indivíduos obesos ou excesso de peso, através de uma escolha nutricional de acordo com o padrão alimentar, preferência e objetivos metabólicos do doente, sendo que os maiores benefícios glicémicos parecem acontecer com a dieta Mediterrânica e com a dieta pobre em hidratos de carbono.
 
Em relação à terapêutica farmacológica, o efeito hipoglicemiante dos fármacos clássicos continua a ser relevante na prevenção de complicações crónicas, mas a grande revolução da última década aconteceu com o aparecimento de novas classes de fármacos – como os iSGLT2 e os aGLP1 - com capacidade de reduzir a mortalidade cardiovascular nestes doentes, e de proteção de órgãos como o coração e o rim, modificando o paradigma do tratamento farmacológico da diabetes.
 
Especial enfoque também no controlo da pressão arterial e do perfil lipídico. A todos os diabéticos deve ser calculado o risco cardiovascular, e, perante essa estratificação, deve ser avaliada a necessidade de terapêutica para controlo destes parâmetros. No tratamento da HTA, todos os fármacos são permitidos, sendo a primazia dada pelas guidelines à associação fixa de um IECA ou ARA a um antagonista dos canais de cálcio, e escalada terapêutica até atingimento do valor-alvo. Da mesma forma, no controlo da dislipidemia devem ser preferidas estatinas de alta intensidade, em associação ao ezetimibe para reduções de LDL-c superiores a 50 %.
 
Uma última palavra para a velhinha aspirina. Poderá ainda haver lugar para anti-agregação em prevenção primária de doentes diabéticos muito selecionados de alto ou muito alto risco CV, na ausência de contra-indicações claras e se o risco de hemorragia major não se sobrepuser ao eventual benefício. 
 
O desafio da prevenção primária na diabetes passa todos os dias na nossa consulta. Saibamos capacitar os nossos doentes diabéticos para os seus principais objetivos terapêuticos - prevenir complicações e otimizar qualidade de vida.

 

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