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Saúde Pública
“A necessidade de manter o acompanhamento em doenças dermatológicas crónicas determinou novas soluções”
quarta-feira, 13 maio 2020 13:01
Pedro Mendes Bastos, médico especialista em Dermatologia e Venereologia e consultor científico da Associação Dermatite Atópica Portugal (ADERMAP), fala-nos sobre os principais desafios no acompanhamento dos doentes com Dermatite Atópica no contexto da pandemia causada pelo novo coronavírus SARS-CoV-2.
 
Vital Health (VH) | Que desafios é que a situação atual trouxe aos dermatologistas que seguem os casos de dermatite atópica?
 
Pedro Mendes Bastos (PMB) | Os médicos dermatologistas que se dedicam ao tratamento de doenças dermatológicas imuno-mediadas como a dermatite atópica (DA) começaram por acompanhar o desenrolar desta pandemia com bastante apreensão. No início, dado o desconhecimento sobre esta nova doença e o potencial impacto negativo de ser portador de uma doença imuno-mediada, foi essencial tentar recolher o máximo de informação possível pois estes temas são de extrema relevância para a nossa atuação como clínicos no dia-a-dia. Para além de estudar os vários artigos científicos que foram sendo publicados, foram também organizados webinars e momentos de discussão entre dermatologistas para definir a melhor forma de agir tendo em conta a segurança dos doentes. Neste sentido, sendo membro do GRADA (Grupo de Reflexão e Análise em Dermatite Atópica da Sociedade Portuguesa de Dermatologia e Venereologia) também tive oportunidade de participar na elaboração de um documento que se encontra disponível online com o intuito de transmitir de forma resumida as orientações necessárias a todos os médicos e doentes que lidam com a DA diariamente.
 
 
VH | Qual a importância de acompanhar os doentes neste contexto em que as suas consultas são adiadas?
 
PMB | A gestão de qualquer doença crónica como a DA implica seguimento clínico e acompanhamento regular por forma a minimizar as crises e conferir segurança. Neste contexto, é evidente que a insegurança relativamente ao adiar é muita pois o risco de uma exacerbação ou um efeito adverso da medicação cresce. Neste sentido, apesar do confinamento, a importância do seguimento mantém-se. Tivemos de encontrar soluções mais criativas! A título de exemplo, como consultor científico da ADERMAP, tive oportunidade de participar num fórum dirigido a doentes com DA. Aconteceu online em formato pergunta-resposta logo no mês de março 2020. Foi uma iniciativa inovadora que não teve como objetivo substituir uma consulta médica, mas veicular de forma informal e simples as informações essenciais para os doentes com DA poderem ultrapassar estes tempos de pandemia mais tranquilos e mais informados. O feedback foi extremamente positivo.
 
 
VH | A teleconsulta tem ganho peso nesta altura? Como vê esta forma de consulta e qual o feedback que tem tido dos seus pacientes?
 
PMB | Como referi anteriormente, a necessidade de manter o acompanhamento em doenças dermatológicas crónicas determinou novas soluções. A teleconsulta de Dermatologia tem sido uma ferramenta de recurso nestes meses que se mostrou extremamente útil, especialmente para os casos de seguimento nos quais a relação médico-doente já estava construída. Por já nos conhecermos bem, a avaliação e ajuste terapêutico ou revisão de exames complementares de diagnóstico foram facilitadas. Nos casos de primeira consulta de Dermatologia, não tendo qualquer conhecimento prévio do doente ou da situação clínica, as limitações já foram algumas. Alguns dos meus doentes ficaram muito contentes pela possibilidade de um contacto com o seu médico em segurança e de forma prática. Pensando em perspetivas futuras, penso que a teleconsulta poderá ter um papel, mas em situações específicas e casos selecionados, após discussão entre o dermatologista e o doente. Não creio que se tornará dominante sobre a consulta presencial de Dermatologia pois a observação clínica ao vivo é muito mais rica e para o estabelecimento da relação médico-doente é fundamental o contacto nos olhos, particularmente importante para doenças crónicas como a dermatite atópica.
 
 
VH | Sente que as pessoas desvalorizam mais a sua doença por estarem mais em casa, ou ainda se preocupam mais?
 
PMB | Mesmo os casos ligeiros de DA conseguem ser bastante incomodativos pelo que o doente não se esquece nunca... Mais uma vez, cada caso é um caso. Para algumas pessoas, o facto de estarem mais resguardadas de mudanças de ambiente e temperatura até acabou por ser benéfico, pois estiveram mais no controlo da sua DA. Para outras, toda a situação de confinamento, o difícil equilíbrio entre vida familiar e teletrabalho ou a incerteza dos tempos constituíram fatores de grande stresse psicológico, levando a um agravamento clínico. Na minha experiência, um momento tão disruptivo como este implica necessariamente novas abordagens por parte do dermatologista para tranquilizarmos e ajudarmos quem sofre de DA. A mensagem final é de esperança. Mesmo com todas as limitações, devemos sempre privilegiar o contacto, presencial ou remoto, com o dermatologista assistente e as unidades de saúde estão empenhadas em proporcionar soluções seguras para que tal possa acontecer.
 
 

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