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Saúde
Pandemia só estancará com lavagem das mãos, um luxo para 40% da população
quinta-feira, 02 abril 2020 11:39
A pandemia de covid-19 só será estancada quando todos tiverem acesso a água para lavar as mãos, “um luxo” para 40% da população. São estas as conclusões de Catarina de Albuquerque, presidente da parceria da Organização das Nações Unidas (ONU) “Água e Saneamento para Todos”, que sublinhou a importância das medidas preventivas contra a infeção pelo novo coronavírus, mas recordou que nem todos têm acesso ao mais essencial dos bens: a água.
 
Catarina Albuquerque, que foi a primeira relatora especial das Nações Unidas para a defesa do direito humano à água potável e ao saneamento, referia-se aos mais vulneráveis, “os mais pobres, a viver em bairros informais, migrantes, sem-abrigo. Todos a quem temos fechado os olhos como sociedade, fingindo que estas pessoas não existem”.
 
A responsável acrescentou: “Estas pessoas às quais temos negado atenção, são estas a quem temos de prestar atenção, nem que seja por egoísmo. Se queremos estancar o contágio temos de assegurar que estas pessoas têm acesso a água para poder lavar as mãos”, sublinhou.
 
A este propósito, relembrou que esta prática defendida como meio de prevenção pelo novo coronavírus, nomeadamente lavar as mãos com sabão, é “um luxo” para 40% da população mundial, ou seja, três mil milhões de pessoas.
 
São vários os fatores de pobreza que dificultam o acesso a medidas de prevenção, como a busca da água para as mais básicas das tarefas. “Há populações que esperam horas numa fila para obterem água de uma fonte, juntas umas das outras. Como é que poderão cumprir as regras do distanciamento?”, questionou. Regras essas que, conforme acrescentou, também não existem em casas onde vivem dez, quinze pessoas.
 
Também ao nível da resposta médica, Catarina Albuquerque recordou que um em cada seis hospitais e centros de saúde também não tem acesso a higiene básica para poder lavar as mãos. Nestas condições, deixou a pergunta: “Como podemos parar o vírus?”.
 
A responsável frisou que estas questões se passam a nível mundial, mas também a nível nacional, onde ainda existem comunidades em habitações sem água canalizada, sem acesso a água potável e muito menos água e sabão.
 
Por outro lado, defendeu uma gestão que tenha em conta o maior consumo de água a que se assiste nos dias de hoje, devido a uma maior limpeza com vista à prevenção da infeção: “As pessoas lavam mais as mãos, limpam mais as casas e consomem mais água. A questão não se coloca em Portugal, mas em países com o abastecimento de água limitado, isso é um problema”, disse.
 
Proporcionar um maior acesso da água às populações sem equacionar o tratamento dos esgotos é também promover a existência de esgotos a céu aberto e das consequentes doenças, referiu.
 
Para Catarina Albuquerque, a atual pandemia, que matou mais de 46 mil pessoas no mundo inteiro desde que a doença surgiu em dezembro na China, veio mostrar que, sem garantirmos o acesso a estes direitos humanos aos mais vulneráveis, não vamos conseguir, enquanto sociedade, escapar ao covid-19, porque é no elo mais fraco que a sociedade quebra.
 
Até ao momento, o novo coronavírus já infetou cerca de 950 mil pessoas a nível mundial e cerca de 48 mil acabaram por sucumbir ao vírus. Ainda assim, cerca de 203 mil pessoas já recuperaram.
 
Em Portugal, foram registadas 187 mortes associadas à doença e 8251 infetados, de acordo com o último boletim epidemiológico divulgado pela Direção-Geral da Saúde (DGS). Os casos recuperados mantêm-se nos 43.
 
Fonte: Lusa

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