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Saúde
Maioria das mulheres desconhece impacto dos distúrbios da tiroide na gravidez
terça-feira, 26 maio 2020 12:29
O desconhecimento quanto ao impacto que as alterações na tiroide podem ter antes, durante e depois da gravidez é o foco da Semana Internacional da Tiroide, assinalada entre os dias 25 a 31 de maio. O objetivo passa por alertar para distúrbios como o hipotiroidismo, que podem gerar dificuldades na fecundação, aumentar o risco de aborto e prejudicar o desenvolvimento do bebé, bem como chamar à atenção para a necessidade de análises da função tiroideia das mulheres que queiram engravidar.
 
Apesar de muitas pessoas já terem ouvido falar da importância da tiroide, Maria João Oliveira, endocrinologista membro da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM), não tem dúvidas que “a maioria desconhece o papel desta em etapas cruciais da vida, nomeadamente no crescimento e desenvolvimento sexual, na conceção e na gravidez”.
 
Inês Sapinho, endocrinologista, também membro da SPEDM, concorda que “há uma grande fatia da população que desconhece o papel fundamental desta glândula e a importância do controlo da função tiroideia, nomeadamente durante a gravidez”, apesar de as doenças da tiroide afetarem sobretudo as mulheres, com a sua prevalência a aumentar com a idade. A explicação biológica para esta assimetria de género ainda é mal compreendida, mas Inês Sapinho refere peças importantes do puzzle: “o cromossoma x e os estrogénios”.
 
O hipotiroidismo ocorre, esclarece ainda Inês Sapinho “quando a glândula da tiroide não produz hormonas em quantidade suficiente para a corrente sanguínea, um défice que compromete o normal funcionamento do organismo”.
 
Maria João Oliveira acrescenta que se trata de uma patologia “insidiosa, que se manifesta lentamente, com sinais e sintomas que podem ser inespecíficos”. Os mais frequentes, entre os quais o cansaço, maior sensibilidade ao frio, queda de cabelo, pele seca, aumento de peso, edemas, fraqueza muscular, depressão, obstipação, irregularidades menstruais, “nem sempre são valorizados quer pelo doente, quer pelo médico, e o seu diagnóstico é muitas vezes tardio”, completa Inês Sapinho. 
 
Este é, contudo, um atraso com consequências. O hipotiroidismo torna mais difícil a fecundação, atrasando a gravidez. Mas o seu impacto não se fica por aqui. Com sinais e sintomas que continuam a ser, também durante a gestação, “inespecíficos e facilmente confundíveis, com queixas frequentes na gravidez (aumento de peso, falta de forças, cansaço e obstipação)”, podendo haver ainda “um aumento do volume da glândula tiroideia, vulgarmente conhecido por bócio”, o hipotiroidismo pode afetar também a saúde do bebé, continua Maria João Oliveira. 
 
“Durante a gravidez, há alterações fisiológicas no organismo da mãe que obrigam a glândula tiroideia a um esforço acrescido. Até cerca das 20 semanas de gestação, a tiroide fetal não sintetiza as hormonas necessárias para o desenvolvimento do feto, pelo que este necessita das hormonas tiroideias produzidas pela mãe, que são indispensáveis ao desenvolvimento do sistema nervoso central fetal. Um défice destas pode-se traduzir, mais tarde, num atraso cognitivo ou dificuldades de aprendizagem da criança”, sustenta.
 
Por tratar, “o hipotiroidismo pode causar alterações na circulação sanguínea placentária, do líquido amniótico e aumentar a probabilidade de um parto pré-termo ou instrumentado. Já as grávidas que apresentam hipotiroidismo causado por tiroidite autoimune crónica (ou de Hashimoto) têm maior probabilidade de desenvolver depressão pós-parto e exacerbação da tiroidite durante um período limitado de tempo”.
 
A médica adianta que “se o hipotiroidismo já era conhecido pela mulher antes de engravidar e se não estiver tratado, conduz geralmente a uma infertilidade. Deverá estar controlado e a mulher deve falar com o seu médico e fazer análises da função tiroideia quando pensar em engravidar”.
 
Por outro lado, se for diagnosticado antes da gravidez, há tratamento e, “desde que a função da tiroide esteja dentro dos limites pretendidos durante a gravidez e a mulher seja convenientemente vigiada, a gestação pode decorrer de uma forma perfeitamente normal”, afirma.
 
Sendo o hipotiroidismo uma doença que se desenvolve de uma forma lenta e progressiva, com sintomas pouco específicos e partilhados com outras doenças, “o seu diagnóstico pode ser tardio se não for pensado atempadamente e, como tal, o seu tratamento atrasado” refere a médica, que esclarece que o diagnóstico se faz “através do doseamento da TSH (hormona estimuladora da tiroide) e da T4 no sangue”. Um exame simples e barato, que pode “evitar as complicações e permitir uma evolução normal da gestação”.
 

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